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Coroado do PEC

Macho - Nascimento: 19/12/1987 – Pelagem Alazã

Possui Registro na ABCCRM

Classificação Ótima – 96,00 pontos

Filiação: Castelo OB x Coroa da Esplanada

O Descanso do Guerreiro

 

            Coroado do PEC, amigo fiel, lembro de toda a nossa história, até mesmo antes de você nascer

e porque não falar, dos momentos felizes, dos aprendizados, das lutas, meu amigo?

 

            Recordo o dia que comprei sua mãe a potra Coroa da Esplanada, uma linda potra, responsável pela sua pelagem alazã, cor de cobre e de suas ganachas bem destacadas e é claro da sua calda um pouco mais clara; acho que era uma herança remota de algum cavalo árabe que entrou bem lá atrás na sua formação genética.

            Lembro também nesse passado glorioso a compra do seu pai, o magnífico garanhão Castelo OB (o garanhão mais caro do Brasil) e da festa que fizemos por ter conseguido tal intento. Acho que foi a primeira vez que eu dei uma entrevista na televisão. Isso foi no ano de 1986.

            Após a compra do seu pai, levamos a Coroa para cruzar com o Castelo, “coisa de feeling de novo criador”, realmente apenas um sentimento que vai dar certo e que desse cruzamento iria nascer um supercampeão. Logo após a chegada da recém-formada égua Coroa da Esplanada ao Haras Embaúba, onde estava alojado o garanhão Castelo OB, recebemos um telefonema que nos deixou muito surpresos, do veterinário responsável pela reprodução, onde o mesmo informou que deveríamos retirar, a Coroa, porque era uma égua ruim e, que ele não iria cobrir com o garanhão pois ela era tão ruim que nem iria pegar cria. Não preciso nem falar, que é claro que, sobrou para eu escutar que eu não entendia nada de cavalo, mas tem certas coisas que podemos não entender, mas que com certeza sentimos e não temos explicação para tal fato.

            É claro que eu insisti para que efetuássemos o acasalamento e assim a Coroa da Esplanada retorna ao Haras Lagoinha com prenhes positiva.

            Enquanto sua mãe andava pelo pasto da recém comprada Fazenda Primavera, hoje Haras Lagoinha, tive uma oferta irrecusável feita pelo amigo F., que depois de muito custo o convenci de comprar a irmã da Coroa a potra Jarra RA.

            E assim, logo você nasceu e que incrível, um maravilhoso e enorme potro de uma égua de primeira cria. Nem preciso falar que era lindo e como tal superesperto e por esse motivo, logo se machucou, fazendo um corte horrível em seu peito e é claro que já me veio a preocupação de como eu o levaria para exposição com tal ferimento; fui então a procura de um veterinário e achei um em Taubaté que realizou a sutura ..., que alívio, achei que estava tudo resolvido..., mas só que o veterinário era inexperiente, não sabia realizar o procedimento corretamente, os pontos romperam-se, ficou horrível. Assim passaram-se inúmeros dias de tratamento com você preso na baia, até que ficou curado. Ufa .... Que alívio!

            Logo chegou a época de estrear nas pistas de exposições e você, meu amigo, começou a ganhar, sempre fazendo a diferença nos resultados.

Precisava ganhar para que o Haras fosse o Melhor Expositor e Criador, lá estava o Coroado do PEC, sua presença era sempre uma certeza de vitórias.

            Era tão certo suas vitórias que no ápice de 1990, quando estávamos disputando para ser o Melhor Expositor e Criador do ranking Geral da Raça Mangalarga, já cansado de inúmeras exposições nos levou

a um super resultado na Exposição Nacional ; mas precisávamos de mais pontuação e você Coroado,  já tinha ganhado tudo nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, então nos restou participar da Exposição de Campo Grande e pela primeira vez você não foi Campeão, apenas pegou o primeiro lugar na sua categoria .

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que aconteceu com o Coroado?

            Na realidade eu não sabia que um simples fato iria mudar as nossas vidas, eu digo isso porque eu realmente aprendi muito com esse episódio e tudo que virá a seguir:

 

Eu lutei por você; nós lutamos juntos; eu acreditei em você e você em mim; você confiou em mim; eu rezei por você e muitas vezes nós vencemos juntos não só as vitórias das pistas de exposições, mas nas vitórias da luta contra o tempo, em acreditar sempre quando existe vida, existe uma esperança, em acreditar na sua luta para viver, em acreditar que mais um dia vale a pena.

 

Esse aprendizado levo comigo até hoje e coloco em prática para com todos os animais e na vida em geral.

 

Uma chuva torrencial na Exposição de Campo Grande deixou sua baia e todas as outras do recinto alagadas. Quando saiu da cocheira para ir para a pista, pisou numa pedra pontuda que perfura seu casco, com dor tem que fazer uma viagem de retorno para o Haras de 25 horas de caminhão, mesmo acompanhado pelo médico veterinário residente na época Dr. H.J.M. seu problema foi inevitável.

 

            E veio então a laminite; é claro que não foi uma simples laminite, mas uma extremamente forte nos seus quatros cascos, com rotação nas quatro falanges. Eu não entendia muito dessa enfermidade, e nem muitos veterinários da época, era no ano de 1990, não existia muitos recursos. Chamamos inúmeros especialistas e o diagnóstico sempre era péssimo. Chamamos até um especialista que veio de Belo Horizonte para te ver e quando estávamos na esperança da cura, o mesmo apenas abre a porta da sua baia e te dá 10 dias de vida. Aquela frase veio como uma apunhalada em meu coração, pois você era o cavalo mais lindo que eu tinha criado, o melhor, o que iria se tornar garanhão do nosso criatório.

            Porque aconteceu isso?

            Sentei na grama em frente a sua cocheira e comecei a chorar, sem saber entender tudo isso – Deus, Porque? Deus, Porque?

           Deus o que posso fazer?

            Até que vem aquela voz interna (DEUS), eu lembrei que ainda tínhamos 10 dias e algum milagre poderia acontecer. Resolvi partir para ação e fazer pequenas ações, como ler livro de psicologia animal para não deixar o cavalo cair em depressão (cavalo se entrega e morre), dormir dentro da baia com ele (rodízio de todos os funcionários dormindo, durante 1 ano, inclusive eu, para dar exemplo), fazer curativos nos quatro cascos, quatro vezes ao dia, minha mãe fazendo colchões de flocos de espuma para ele deitar, enfim todos fizeram a sua parte, os funcionários não deixaram você nenhum instante; era o veterinário Dr. W.F. R., tentando estudar um jeito de estabilizar o seu organismo, era eu do seu lado fazendo companhia, dando verde e cenoura na sua boca enquanto gemia alto e nessa hora eu que dava estímulo de coragem para que acreditasse que iria levantar e andar novamente. Passaram-se dois anos, os cascos cresceram e um belo dia Coroado levanta, magro, com sua coluna toda torta, parecendo um S e, por um momento pensei que tudo estava acabado, que a sua carreira em pista seria impossível.

 

               

 

 

 

 

 

 

O que fazer para melhorar toda aquela musculatura?

 

            São dos problemas que surgem as melhores ideias e assim tivemos a inspiração de realizar o projeto da Piscina para então, colocar o Coroado em forma através da natação, e poder  recuperar a sua musculatura sem forçar os seus cascos, aumentar a parte cardio-respiratória. O trabalho foi incrível, era nítido ver o prazer que tinha em nadar, até fazia barulho de relaxamento na hora da hidromassagem. Que alegria ver você feliz. Essa de fato foi mais uma vitória, uma vitória tão grande que o universo também conspirou e, com essa ideia eu ganhei o 1o. Lugar no Prêmio A&D de Decoração com o projeto da área externa do Haras Lagoinha. Por tudo isso e o que se seguiu, é que você meu amigo, sempre foi um cavalo especial em todos os sentidos.

 

            Como a lenda diz que o homem sozinho no deserto pede aos Deuses um companheiro que tenha a força do leão, o olhar da águia ... de fato eu presenciei todas essas características especiais e talvez lá no meu íntimo eu escolhi o nome Coroado do PEC; pois eu sabia que a sua existência seria coroada de vitórias; vitórias essas que eu jamais vou esquecer.

            E assim Coroado, na minha conversa com Deus, lá nos seus “pseudo” dez últimos dias, acabei fazendo uma promessa, pedi para que voltasse para as pistas e para nossa alegria, você reestreiou em Paraibuna /SP, onde estava exuberante e maravilhoso, mas aquele dia seria uma prova de fogo definitiva para o seu destino nas pistas. Fiz até um desenho de uma ferradura especial para proteger suas ranilhas, pois eram sensíveis. Quando chegamos, fiquei com o coração apertado pois a pista possuía uma infinidade pedras e eu achei que poderia voltar as suas dores nas patas, então eu e o Paulo (PEC), começamos a retirá-las da pista como dois loucos, mas não vencíamos, eram muitas e assim, deixamos o universo resolver. Era mais fácil rezar.    

    

Afinal de contas será que iríamos morrer na praia?

            E depois de uma hora de prova, que mais pareceu uma eternidade, surge mais uma linda vitória, você era vencedor novamente. Eu me perguntava o que será que passou pelo seu pensamento? Será que foi igual ao meu? Será que por um flash, voltou à tona, todos aqueles momentos difíceis, até aquele seu olhar embaçando quase lá do outro lado da vida e agora o seu retorno triunfal?

Coroado que orgulho eu tenho da sua força e da sua beleza.

 

            E seguimos assim, ganhando inúmeras exposições onde foram 32 Provas de Marcha como Campeão; todas elas eu rezei para que não acontecesse nada com seus cascos. Conseguimos Saltar, fazer Balizas e ser o mais rápido na Agilidade. É mesmo inacreditável, mas o amor tem dessas coisas, supera qualquer barreira.

                Era o velho Coroado de guerra ajudando o Haras Lagoinha a ficar sempre no topo do ranking da raça Mangalarga.

            Mas, agora chegou a hora de provar que você era um bom reprodutor e conseguiu, fez uma linda filha, que leva o nome do Haras e representa o que existe de melhor no nosso criatório, é a égua Lagoinha do PEC, uma super égua bem parecida com o pai e mais tantos outros como o Moçambique do PEC, o Mississipi do PEC, o Paris do PEC, Parma do PEC e o mais novo o Quilombo do PEC, entre outros.

            Agora Coroado estava com a vida tranquila, os problemas superados, não o estávamos mais levando para as exposições, afinal estava cansada de ficar preocupada, achando sempre que poderia acontecer alguma coisa com seus cascos.

            Mas, Coroado como sempre a sua luta foi pela vida, e logo em seguida, sem explicação, foi abatido por uma cólica que só cirurgicamente poderia ter algum resultado positivo no seu diagnóstico. Depois de dois dias de grande sofrimento eu vi novamente aquele olhar já embaçado e cansado de tanto sofrer, não tinha mais o que fazer ou a cirurgia ou com certeza a sua morte em algumas horas.

            É claro que nesse momento é sempre difícil tomar uma decisão, mas a cirurgia era aquela luz no final do túnel que eu aprendi a acreditar; achei que eu teria que fazer a minha parte, pois do outro lado estava o super Coroado do PEC, aquele garanhão com muita força para viver e ele estava ali, olhando para mim, aguardando a minha decisão e eu o que eu queria naquele momento? Nada iria substituir o companheiro Coroado e então providenciei imediatamente sua ida para o Jockey Club, fui atrás do caminhão rezando mais uma vez para que pudesse aguentar a viagem, para que pudesse sobreviver a cirurgia, e superar o que estava por vir. 

Assim chegamos no Jockey às 3:00 horas da manhã, começando rapidamente a cirurgia, lá estava meu querido cavalo sedado, sendo aberto e eu lá rezando sem entender muito do procedimento, só olhado o eletrocardiograma e seguindo os seus batimentos cardíacos; estava correndo tudo bem, mas que demora, não acabava mais, estava lá todo o seu intestino para fora, acho que agora eu estava conhecendo meu amigo ainda mais internamente, até que acabou a cirurgia às 06:30 horas da manhã, o dia amanhecendo, cavalos começavam a sair das cocheiras, a realizar suas caminhadas e eu estava ali ainda no Jockey, sem dormir esperando o seu despertar. Demoradamente foi retornando, mas não estava bem, é claro com muitas dores.

            E assim seguiu por vários dias, passamos por inúmeros apuros, seu intestino não funcionava. Como tenho um lado místico, utilizo terapias, comecei a administrar Reiki para que seu intestino voltasse a funcionar, e com isso nossa ligação ficou mais forte, eu sentia que o Coroado gostava das minhas visitas e eu, ainda mais em saber que meu querido amigo dava importância para a minha presença. Esse de fato era um grande presente. Logo seu intestino voltou a funcionar e as coisas começaram a melhorar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas aquela antiga laminite tinha que voltar ..., bem agora?

            De fato, voltou, que dor..., mas que bom que nós tínhamos a Dra. M. L., que é assim apaixonada por cavalos e é claro, mais uma fã sua, também mais uma aliada na nossa luta incessante pela vida, afinal de contas sabíamos que queria voltar para o nosso Haras. Agora eu fazia Reiki para os seus cascos, acho que isso o aliviava muito, pois bastava eu chegar para logo você deitar, para que eu pudesse fazer reiki nos seus cascos onde relaxava tanto, que até roncava. Lembro um dia que chegou até dar um susto num veterinário residente que achou que você estava passando mal, pois quem poderia entender que se sentia tão bem quando estava com a sua dona e eu também dava uma disfarçada afinal nada daquilo era muito comum. Assim passou um mês para sair novamente da cocheira e conseguir retornar para o Haras. Precisamos improvisar umas espumas para que fossem colocadas nas solas dos seus cascos, tipo uma bota. Que incrível, você dentro do caminhão após viajar duas horas relinchou, assim que chegou no portão do Haras Lagoinha ainda dentro do mesmo, sem ver nada?

            Que vitória maravilhosa, lá estava o Coroadão, novamente na sua Baia, aquela que ele escolheu e que nunca mudou.

 

            Vivemos um ano muito bom e é claro com muita dedicação do administrador B.A.R. que o conheceu desde seu primeiro ano de vida e conviveu e nos ajudou em todas as nossas vitórias, sem falar em todos os funcionários que sempre te mimaram muito, afinal foi sempre um cavalo amado por todos, até pelos proprietários dos cavalos que competiam no mesmo páreo que o seu. A sua luta foi conhecida e admirada por todos, até aí no Jockey Club, recebeu visitas e sempre alguém comentava de suas extraordinárias vitórias.

            Cada dia que passava sua recuperação era nítida, agora eu queria administrar reiki em você e não mais curtia, até que compreendi que estava realmente bom e porque então eu teria que fazer?

            A natureza reage assim: quando não há necessidade, não precisa.

            Foi mais uma lição que me ensinou.

            Mas tudo que é bom dura pouco. 

            Novamente outra cólica, praticamente não comendo muita coisa, alimentação extremamente regulada, mas talvez o destino decidiu que esta seria sua última batalha, possivelmente achou que teria que descansar, ou simplesmente julgou que sua missão teria terminado, que já teria aprendido tudo com nosso convívio, ou com suas lutas e vitórias e, sendo assim não conseguimos ganhar a última batalha. Mas em nenhum momento meu querido amigo se entregou, acreditou em mim, ficou esperando o milagre que sempre aconteceu e eu também estou aqui sem entender o que ocorreu , nós nunca tínhamos perdido e de fato não perdemos. Uma vida é sempre válida quando de fato existe momentos plenos para ser contada e a nossa AMIZADE foi de extrema união.

Com certeza COROADO DO PEC, foi aquele cavalo que eu, um guerreiro romano em vida passada, ferido em uma batalha onde fui levado no lombo de um cavalo para casa, me salvei.

Sem dúvida, esse cavalo era o Coroado do PEC, talvez só assim exista explicação para tal fato.

            Obrigada, pela sua existência, com muita fé estarei esperando meu amigo para as próximas batalhas das nossas próximas vidas, pois nada acaba aqui, nesse plano.

Até breve Coroado do PEC

Marisa Iorio

(02/06/2001)

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